http://www.crearensalamanca.com/jorge-fragoso-poeta-editor-y-traductor-portugues-sobre-los-libros-de-alvaro-alves-de-faria-y-montserrat-villar-que-se-presentaran-en-el-xvii-encuentro-de-poetas-iberoamericanos/
A experiência de tradutor de Montserrat Villar González
O trabalho de tradução deste livro (38 poemas) — Tierra con Nosotros, que se verteu para português como Terra Habitada, resultou da retribuição amiga perante um gesto de simpatia de Montserrat Villar González que foi a oferta que me fez dos seus mais recentes livros, num interessante encontro de Salamanca, em 2013. Logo no início, os poemas deste livro produziram em mim um efeito quase estranho. Uma espécie de proximidade, de identificação com as palavras, aquele sentir que nos provoca o pensamento: “Quem me dera ter sido eu a escrever isto…”.
Não tenho, confesso, formação académica na área da língua castelhana. Mas a mesma proximidade com o idioma, e com o escrever aberto de Montserrat, levou-me a entender, de um modo interior, as suas palavras. Depois, como um impulso, traduzi, como pude, um primeiro poema deste livro premiado, no mesmo ano, no concurso literário SELEER 2013. E enviei a tradução desse único poema a Montserrat. Foi grande a sua emoção, que me contou em lágrimas de alegria. Montserrat Viilar González, enquanto estudante, permaneceu em Coimbra por cerca de um ano, integrada no Programa Erasmus. Apaixonou-se pela cidade, creio que também pela língua, sobretudo pela vivência coimbrã. E revelou, numa visita que fez, no ano passado, à nossa Casa da Escrita de Coimbra, que era um sonho antigo, acalentado de muita esperança, ver um livro seu traduzido em português e publicado em Portugal. Sendo, então, em Coimbra, seria maravilhoso. E eu, (pobre de mim – no que me fui meter) pensei se não poderia ajudar a realizar esse sonho. Aventurava-me na tradução e, como editor, não seria difícil publicar o livro.

Montserrat Villar
Foi uma tarefa demorada, difícil, mas que dava muito prazer a cada poema traduzido, a cada texto concluído. Para além de tradução, concluímos que seria uma versão portuguesa do livro de Montserrat. E eu disse concluímos porque, aqui, surge a âncora que me salvou, a enorme ajuda que constitui o facto de ter a possibilidade de debater com a própria poeta, que fala português, que é professora de literatura portuguesa e que, assim, pôde, de muito perto analisar cada palavra, cada verso, cada ideia que fomos debatendo ao longo de meses, por e-mail, por videoconferência, em dois ou três encontros presenciais.
E fui descobrindo o maravilhoso, duro, terno, profundamente comprometido que é este livro – Terra Habitada. Uma poesia de intervenção social, ecológica, na guerra… um poesia de intervenção que nos toca, às vezes choca, e é um despertar fundo das consciências. Há poemas que nos provocam a raiva, há poemas que nos comovem, sobretudo, todos os poemas nos fazem parar para pensar, reflectir profundamente, e adoptar, talvez, a mesma posição de engajamento, de comprometimento, de luta contra tantas experiências horríveis, ou irónicas, ou profundamente hipócritas com que nos deparamos cada dia, e nos chegam dentro dos olhos através do que nos cerca: basta estar atento, ou ser como Montserrat Villar González que se deixa tocar por uma realidade agreste, e tenta, pela palavra poética, encontrar uma, alguma, qualquer solução…
Foi preciso traduzir este livro para compreender o seu âmago e entrever, talvez, um pouco do pensamento da poeta e a sua posição perante a vida, o seu modo único de “mudar o olhar do mundo”. O que será, provavelmente, a razão maior da escrita poética, o “para que serve”, afinal, a poesia.
Jorge Fragoso (Poeta, Editor y Traductor, Gracias por este regalo que me acerca un poco más al mundo en el que parte de mi alma se quedó en 1995.